Discurso do governador Anastasia na solenidade de entrega da Medalha da Inconfidência
Antonio Anastasia presidiu a cerimônia deste 21 de abril na Praça Tiradentes, em Ouro Preto
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Neste domingo (21), em Ouro Preto, o governador Antonio Anastasia presidiu a cerimônia de entrega
Foto: Wellington Pedro / Imprensa MG
Neste domingo (21), em Ouro Preto, o governador Antonio Anastasia presidiu a cerimônia de entrega da Medalha da Inconfidência. Leia abaixo seu discurso completo.
Mineiros,
Somos nós, os mineiros, uma aposta da razão. Não tivemos o privilégio de guardar, nos genes, milênios de convívio com a paisagem, como os povos dos continentes antigos. O grande cronista do Mediterrâneo, Fernand Braudel, adverte que a História é, antes de tudo, geografia.
Em nosso caso, não foi preciso que gerações se sucedessem para que, em instantâneo enlace da emoção com a inteligência, nós nos integrássemos nesta sólida porção da pátria e assimilássemos seus veios e nervos metálicos.
Em termos históricos nascemos ontem, e somos, dentro da curta crônica brasileira, povo ainda jovem. Para que não nos dizimássemos, no conflito pela posse das lavras, apelamos para as negociações políticas, em busca da conciliação de interesses. E esta foi a nossa salvação.
Mudos os bacamartes dos Emboabas, a razão nos levou a entender que, para construir e assegurar a paz, era necessária a independência, a fim de fazer de nossa terra a base do Estado Nacional.
Não tínhamos nem mesmo um século de presença em Minas e conseguíramos construir a própria tradição, fundada em particular consciência do mundo.
Não saberíamos viver sem liberdade, ideia que nos tangeu ao vadear os rios e galgar as serras.
Pela liberdade nos rebelamos em 1708, em 1720, em 1789 e em 1842. Mas não nos seduziam, e não nos seduzem, os arroubos da anarquia.
O nosso empenho está na busca da liberdade para construir a ordem da justiça, e no emprego da ordem a fim de garantir a liberdade.
Nesse equilíbrio entre os dois pesos se encontra a Justiça. E esse equilíbrio só se obtém na paciente atividade da grande política.
Não nos movem utopias para o fim dos tempos: as nossas se amarram ao sonho e ao trabalho de todos os dias. Nós, mineiros, temos profundo apego ao cotidiano, movidos pela ideia de que o futuro não passa da dilatação do presente.
Vossa Excelência, eminente orador, Ministro Joaquim Barbosa, nascido em uma das velhas vilas mineiras, a do Paracatu do Príncipe, conhece esses caminhos da alma mineira. Eles são secretos para os não mineiros, e por mais os revelemos, é difícil que os decifrem. José Bonifácio, esse grande brasileiro que devemos sempre reverenciar, como o grande articulador do ato formal da independência, advertira o Imperador, antes da primeira viagem a Minas, em 1822, que éramos os mais astutos dos brasileiros.
Queria, provavelmente, prevenir o Imperador contra as possíveis manifestações de falsa vassalagem. Em sua segunda e malograda visita, quando o jovem príncipe chegou ao coração de Minas, ainda em Barbacena, não ouviu os toques de regozijo, mas, sim, monótonos e graves batidos de Finados, em claro protesto pela morte de Líbero Badaró, ocorrida um mês antes, em São Paulo. O assassinato do festejado homem público, por esbirros da Coroa, era um crime contra a liberdade, e sendo contra a liberdade, crime contra nossa gente.
Não nos dissimulamos, nem oferecemos – a não ser os bajuladores de sempre – preito algum de vassalagem ao Bragança. Ao entender o recado claro dos mineiros, ele, retornando ao Rio, aonde já chegara o eco das montanhas, cuidou de preparar a abdicação e o retorno a Portugal.
Nós somos assim. O nosso abissal segredo é o da clareza. Não dissimulamos os sentimentos; cuidamos apenas de não os proclamar com os clarins da soberba. Somos modestos, conservadores de nossa honra e indômitos combatentes pela liberdade.
Ministro Joaquim Barbosa, senhoras e senhores.
Em outubro próximo, no dia 24, fará setenta anos que ilustres mineiros, conduzidos pela nossa velha razão, redigiram e divulgaram o conhecido Manifesto, denominado Manifesto dos Mineiros em defesa da reconquista do Estado Republicano e do fim do Estado Novo. Os idealizadores do documento levaram mais de um ano a fim de, na clandestinidade necessária, realizar as consultas devidas, encontrar o texto de aceitação comum e assiná-lo.
O propósito, como sabe Vossa Excelência, era o de divulgá-lo um ano antes, no centenário da Revolução de 1842, em julho, coincidindo com o manifesto do grande movimento, redigido por Teófilo Ottoni e assinado por José Feliciano Pinto Coelho.
O Manifesto de 1842, 20 anos depois da Independência, é um documento nacionalista. Em dois pontos de seu texto adverte contra a indesejável influência dos estrangeiros em nossos assuntos internos. Os estrangeiros de então eram os ingleses, que esperavam renovar, em seguida, um Tratado Comercial contrário aos interesses nacionais.
O Manifesto de 1943, por seu turno, em plena Segunda Guerra Mundial, é um dos documentos clássicos de nossa literatura política.
O documento de 1842 fora uma arenga revolucionária, ainda que fundada nas razões maiores de Estado; o de cento e um anos depois é um convite a ação mais difícil e corajosa: a de conspiração e mobilização de natureza política, que seria vitoriosa dois anos mais tarde, em 1945, com a convocação da assembleia nacional constituinte e as eleições gerais de 2 de dezembro.
Vale a pena, senhor ministro e presidente Joaquim Barbosa, reler aqui uma breve passagem do Manifesto de 24 de outubro de 1943 – 13 anos depois de vitoriosa a Revolução da Aliança Liberal, conduzida por Minas, Rio Grande do Sul e Paraíba, e cujos enunciados nunca perderam a atualidade.
“O amor à crítica e ao debate, o apego às prerrogativas da cidadania, o dever político, no seu mais nobre e dignificante sentido, numa palavra, a irresistível vocação para a vida pública, não são, sem dúvida, felizmente, no Brasil, privilégio dos mineiros; mas devemos orgulhar-nos, por todas as razões, do fato de ser a comunidade mineira no País, por influência dos fatores de ordem histórica e social, aquela onde esse sentimento dos interesses coletivos e essa compreensão do munus cívico, essa indomável e altiva tendência política nunca perderam sua força e constância.
As palavras ponderadas desta mensagem, que dirigimos aos nossos coestaduanos, inspiram-se, pois, nas suas mais firmes tradições de civismo e no seu reconhecido apego aos ideais políticos que se realizam pela autonomia estadual e pela democracia. Nada mais são do que o eco, por nós recolhido e intensificado, das que foram proferidas, nos prenúncios da Independência, por Tiradentes e seus companheiros de infortúnio e de glória e que mais tarde, no Império, deveriam reboar pelos vales e quebradas da nossa província, no decurso de lutas memoráveis e de incessantes arremetidas contra a personificação do Poder, sempre conducente aos desequilíbrios e paralisias do unitarismo e às restrições das liberdades públicas e privadas”.
Ao relembrar os princípios norteadores desse Manifesto histórico, quero aproveitar para homenagear, dentre os seus eminentes autores, o grande mineiro Edgar de Godói da Matta Machado, um de seus inspiradores e signatários, cujo centenário de nascimento comemoraremos em maio próximo.
Edgar foi um dos maiores nomes de Minas, em sua bravura moral, em sua fulgurante carreira no culto do Direito, nos ensaios filosóficos, na militância política e no sofrimento, com a perda trágica de seu filho, durante o regime de exceção.
Senhor Ministro Joaquim Barbosa,
Ao receber Vossa Excelência em nossa indomável Vila Rica de Ouro Preto, quero lembrar a personalidade de alguns dos ilustres mineiros, já acolhidos pela Eternidade, e que o antecederam na presidência do mais alto tribunal brasileiro. Cito, em primeiro lugar, Sayão Lobato, que, membro do Supremo Tribunal de Justiça do Império, foi reconduzido em seu cargo pelo governo republicano. Nascido na velha Cidade do Serro, que daria ao Supremo outros nomes ilustres, como os de Edmundo Lins e Pedro Lessa, Sayão Lobato foi, como outros tantos e grandes magistrados brasileiros, também homem do Parlamento e da Administração.
A Pedro Lessa que, no sistema então em vigor, não conseguiu chegar à presidência da mais alta corte, os brasileiros devem a ampliação do direito ao hábeas-corpus e a introdução do instrumento do mandado de segurança, como bem sabe Vossa Excelência. E quero destacar, nessa evocação, a excelsa personalidade de Edmundo Lins.
De todos e tantos os que o precederam na composição da Alta Corte, o mineiro mais próximo de sua biografia, Senhor Ministro, parece-me, foi Edmundo Lins. Tal como Vossa Excelência, ele, nascido no Arraial do Milho Verde, na Cidade do Serro, soube educar-se e vencer as dificuldades, antes de se tornar o grande magistrado que foi.
Limito-me a mencionar estes três grandes magistrados, de uma imensa plêiade de notáveis mineiros que honraram Minas no pretório excelso, aos quais presto permanente tributo em nome de todos os mineiros.
Senhoras e senhores,
Em nome do povo mineiro, agradeço sua presença nesta solenidade – homenagem que prestamos todos os anos a Tiradentes e a seus companheiros. Aproveitamos para reconhecer o mérito de tantos que aqui estão, que em suas respectivas atividades profissionais e sociais, dignificaram sua trajetória e tem valorizados os seus atributos.
Ao nos reunir nesta praça cívica, em 21 de abril de todos os anos, reafirmamos o nosso compromisso de viver, trabalhar e lutar para assegurar ao povo brasileiro a soberania sobre este vasto país, na liberdade, na alegria, na paz, na ordem e no progresso.
Muito obrigado.